quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Croque

Cortei e abri a palavra
Dissequei-a
Só para ver seus nervos
Latentes
Como criança que desmonta o brinquedo
E depois não consegue montá-lo
Não ousei tocar suas entranhas
Não por medo de machucá-la
Mas por receio de tomar um choque
daqueles fios desencapados
acalmei a curiosa sanha
que queria mantê-la nos dedos suados
mas ao fechar, quebrei a palavra
num terrível “croque”
E chorei.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Libra

Foi-se o tempo em que nadar contra a corrente
Era privilégio de quem queria atravessar o rio
Em linha reta, cortando o fluxo que vem
Quem quer atravessar a vida, sem amigos
Sem amor, sem equilíbrio
O faz também.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Dissabores

Olho de peixe na planta do pé
Pé de galinha no canto do olho
A manga da blusa suja de molho
Molho de chaves num vão qualquer

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Dito pelo não ouvido

Dizem que o que se diz fica


eternizado

na mente de quem disse

da forma como ele mesmo ouviu

E

permanece guardado

no ouvido de quem
escutou

da forma como esse quer crer que tenha sido

dito

quinta-feira, 14 de julho de 2011

C' a fé

Eu só preciso tomar um café
Ali na esquina
pra recuperar toda essa minha fé
adormecida
E depois tirar mais um cochilo
Pra irrigar a alma aqui no rio Nilo
tranqüilo.

Ouça
os belos poemas que o vento sussurra
Não tema
a verdade fria que ao amigo você urra
Sinta
o gosto de amargo na boca daquele que
você esmurra

Se o
cedo é doce*


assim eu me encontro


mais tarde,

se a mim desaponto,

reinvento a história,
vivo conto.

Cristiano Fogaça


(* Homenagem a P. Leminski que disse: “Tão doce, tão cedo, / tão já / tudo de novo vira começo”).

sexta-feira, 17 de junho de 2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

Idadodia

É ida
a vida que segue sincera
e ninguém percebe que é bela
a luz da tarde que vai e não volta
anuncia que será pelo amanhã seguida

Façam as vezes
dos anfitriões de seus mundos

Inovadores ou reacionários
sem pensar nos louros alheios...
Mesmo se de quando em vez
vazam as vozes dos sonhos solitários,
sintam-se com os corações cheios

De alegria, de nostalgia
de infantil e incontida energia.