sábado, 14 de junho de 2008

Mar profundo

Acordar e olhar para o céu. Azul. Cheio de luz e vontade. Cheiro de café, perfume e olhos ainda baços. É manhã de novo, mais uma vez, outra vez. Mas há quem não queira acordar e tampouco olhar para o céu. O que move as pessoas que desistem da vida ? Ou o que não as move mais... Quando se está perdido, se ouve aqueles conselhos sábios, que entram pelos tímpanos como água do mar. Incomodam, pois ficam lá dentro se mexendo, remoendo, chacoalhando. E, às vezes, até doem. Mas logo saem, seguidos de um estouro opaco, quando já nem nos preocupamos mais com aquilo tudo. Assim é a dor do aprendizado. Ou vice-versa?

Costumamos tentar enxergar tudo de longe, de cima, distante. Respiramos o máximo de idéias externas, que nos é permitido. Asfixiamo-nos. E para nos compreendermos tentamos nos ver de perto, fechamos os olhos e mergulhamos em nossas imagens internas. Afogamo-nos. É disso, que todos precisam, muito disto e pouco daquilo e, tempos depois, menos daquilo e muito mais daquele outro. Alternando água e terra. Altura e mergulho.

Mas se a alma quer folia, a cabeça pede alforria. E o corpo fica refém, entre a cruz e a caldeirinha. Como quem quer dançar tango, mas não tem um par. Ou como quem quer andar de bicicleta, mas tem medo de correr sem rodinhas. Como quem quer curtir o mar, mas não vence as ondas bravas da ressaca. Medo que nos castra, receio que nos mina. A coragem que nos cega seria a força que ilumina? Besta rima...

Os sentimentos se entrelaçam em novelos internos, mais viscosos que entranhas. Estranhas? E as idéias fervem na cabeça, mais coloridas do que os corais. Cérebros do fundo do mar. E na superfície flutuam docemente algas fluorescentes. Nos rostos tensos, singram plácidos sorrisos. Hora de levantar, do fundo do mar.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Letra de Música: "Absorva"

Composição: Felipe S. e Samuel

(Letra de música da banda pernambucana Mombojó)


Vai, me absorve, que hoje eu quero ser só seu

Me dissolve e mexe com a colher

O seu prato predileto é quando eu digo não.

Não quero mais ser só....

Não quero mais ser seu só...

Não quero mais....

Me absorva mais

(Me absolva,

Me abençoa

Me absorva...)

Seu sorriso é um paraíso

E no ar, vou em transe ao sol

Para me livrar de tanto mar

Resolvi espairecer, apareci sem avisar

Para não ser sempre

A mesma rotina de ilusões

Mesma

Rotina de ilusões

Me absorve, que hoje eu quero ser só seu

Não quero mais ser

seu só.

Me absorva mais, me absorva mais.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

HAIKAI

FIM DA TARDE SEM




O MAR OLHA PARA O CÉU




PARA CLAMAR POR ALGUÉM




VAGA LUZ É SOL




SOME LÁ APARECE CÁ




LUME QUE VEM DE SI


terça-feira, 1 de abril de 2008

Tortas favelas parindo bailarinas

Flores amarelas nascendo do concreto

Criança de rua prefere arte à cocaína

Fetos saudáveis dentro de mães enfermas

Gestos confiáveis submersos em noite erma

Lixeiro humilde devolve pasta com um milhão

A água que chega para nutrir todo sertão

A moça grávida de vida

Agradece a tudo com comoção

É a senhora da ávida vida

Que nos sorri em contemplação.

segunda-feira, 10 de março de 2008

VEJA e o jornalismo de papel higiênico

Veja é a revista mais vendida do Brasil. Essa verdade é propagada a quatro ventos como se vendagem fosse sinônimo de qualidade e isenção. Se isso fosse verdade, È o Tchan, Bruno e Marrone, além da inflável Ivete "Caras" Sangalo, seriam os artistas de maior talento no mundo artistico brasileiro, desbancando Chico Buarque e Paulinho da Viola, notadamente de vendagens menores. Portanto, número de anunciantes e de leitores não significa, definitivamente, maior qualidade e menos ainda, isenção. No blog de Luis Nassif, o jornalista desconstrói factualmente as verdades e os fatos que VEJA vende como se fossem não-ideológicos e imparciais. Detalhe por detalhe, colunista por colunista, Nassif destrói os mitos da apuração profunda e da suposta imparcialidade do semanário da Abril. Pode-se conferir o extenso dossiê em: http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/. Nele é mostrado como a VEJA usa de sua popularidade para destruir reputações, rconstruí-las e se posicionar ao sabor dos ventos das receitas de propagandas e dos interesses de seus anunciantes. Veja já foi muito útil, como por exemplo na apuração e posterior queda de Fernando Collor, o Caçador de Marajás, fenômeno aliás criado por Veja e pela Globo. Nos últimos tempos (5 anos) Veja vem, sistematicamente, atacando o governo de Lula. Tarefa facilitada, claro, pelos incontáveis deslizes éticos do presidente. Ajuda, também, o fato de que os leitores de Veja estejam situados na classe média e na classe alta da pontiaguda pirâmide social brasileira, que têm uma grande ojeriza pelo nosso presidente, não só pelos desmandos éticos, mas, principalmente, por puro preconceito de classe. A revista usa essa ojeriza, para ao criticar o governo ir emplacando e explicitando seu posicionamento ideológico, tentando apresentar como fato, posições claramente duvidosas. Imprensa conservadora existe bno mundo inteiro. No entanto, em países civilizados essa imprensa se posiciona como tal, e não se diz arauta de uma imparcialidade que tanto propaga Roberto Civita e Cia. Se alguém quiser ter mais informações de como a grande mídia consegue criar uma certa pauta que lhe interessa dando destaque ao que quer e renegando notícias menos interessante, sob seu pobnto de vista, sugiro Noam Chomsky. O renomado linguista e analista política demonstra como os interesses privados podem se sobrepor aos públicos para suplantar e distorcer o noticiário das grandes redes. Na próxima vez que for ler Veja, olhe direito para realmente ler o está escrito.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Acorde

Desprende-se da corda e

Faz vibrar dentro do peito

Combinam-se e soam como um

Alinham-se e escrevem uma canção

Acorde
Para a música que nos eleva em vibração

Acorde

Desentendimentos nos desvirtuam da evolução

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Vidigal

Ocultando beleza e fúria. Esbanjando loucura e frieza. Caminhava por entre sombras, esgueirando-se por esquinas e becos, com a fantasia volúvel de encontrar alguém conhecido, naquele fim de mundo obscuro. Nenhuma palavra de verdade lhe dirigiam. Nada. Apenas palavras burocráticas, quase inaudíveis, que ele deduzia por leitura labial. Entrou, então, numa avenida grande, iluminada, cheia de letreiros expostos em prédios faraônicos que lhe ofuscavam qualquer coragem de expor-se. Olhou para baixo e seguiu rápido como boi açoitado. Com os passos nervosos e as mãos que não se encaixavam em si, ele sentia suores lhe percorrendo o corpo gelado.

Olhares de desdém, gestos de desconfiança, passos receosos, isto era tudo que ele recebia naquela infinita Avenida. Além de luzes fortes no rosto enrugado e perfumes azedos das madames. Chegaram a gritar algo ao longe, como, “será que ele não se enxerga?”... Mas Vidigal filtrava bem as palavras em seus ouvidos.

Próximo à cafeteria, numa esquina qualquer, um som metálico invadiu-lhe a cabeça. Mais parecia uma miragem de oásis a lhe inebriar a visão. Um homem estranho, sentado sobre caixas velhas entoava notas lustrosas num saxofone velho e fosco. Ninguém o via. Quase ninguém o ouvia. Apenas o velho Vidigal, o observava com introspecção. Cada nota mais estendida que o músico alçava no ar, era um prédio que desabava dentro de Vidigal, com fervor e fúria. Sentia tremer tudo e todos.

Aos poucos passou a bater com os pés na calçada, como que marcando o tempo correto dos compassos e sentiu vontade de sorrir. Mas aquilo pareceu-lhe ridículo, àquela altura dos acontecimentos.

De repente. uma brusca freiada de carro, retirou-lhe injustamente daquela condição etérea. Pneus cantaram de forma estridente. Não se seguiu batida ou acidente, mas somente um sobressalto que fez Vidigal pensar que o som lhe pudesse ser abafado para sempre. As notas permaneceram intactas, leves e cada vez mais altas. No volume e na audácia. Vidigal suspirou aliviado. A cidade aos poucos derretia e tudo era somente música, ritmo e poesia.

Quando deu por si, Vidigal já dançava, por entre os pedestres da calçada, abraçando postes e flutuando docemente, como um dançarino. Embriagado de alegria, inconsciente, cheio de vida.

Foi então que o músico cessou a magia. Desgrudou o saxofone dos lábios, ergueu os olhos para o chapéu, avistando míseras moedinhas ali lançadas pelos pedestres e encarou Vidigal por instantes. Vidigal que sapateava, congelou-se sorridente e ofegante e mirou o músico no fundo dos olhos cansados. O músico sorriu-lhe de volta e disparou um jazz, que navegou como míssil contra tudo a sua volta, fazendo Vidigal agitar-se como criança.

Enquanto tocava, o homem do saxofone teve a certeza de que mesmo sem audição e muito doente, o velho Vidigal ainda sabia reconhecê-lo, como um grande amigo de outros tempos.