sexta-feira, 19 de março de 2010
Arrebentação
desvencilhando-se de enevoadas águas
respira rápidos e sufocados sopros
quando apóia-se a uma pedra, por sorte
só consegue fazer relaxar os pesados ombros
sem querer pensar em quase nada
tenta a qualquer custo recuperar o fôlego
a linha do horizonte estende-se na superfície rasa
o sol repousa como diamante sobre a espuma
as gaivotas esbanjam volúpia, batendo asas
e enquanto luta para deixar a densa bruma
o homem fatigado crê que nada mais o arrasa
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
O anoitecer dos tamborins
sombras caminham pela cidade torta
luzes, só de alguns isqueiros frenéticos
em janelas altas e mornas
mergulhamos em sonos herméticos
embalados pela avenida-aorta
os semáforos insistem num verde sem fim
nos céus, surge um trôpego Zeppelin
as garrafas brindam involuntárias,
nas mãos da garçonete solitária
enquanto cães latem, num debate cego
a cidade, ao longe, se desmonta
como um castelo de lego.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Fagulhas
Entrelaço a agulha nas tramas dessa canção...
Penso ter visto o seu rosto perdido na multidão
É a cidade-deserto que me exibe outra ilusão
Vou andando pra cima e pra baixo, sempre a buscar
Aprendi, sonhos são mais reais quanto mais se sonhar
Mas não sei onde pus a cabeça quando procurei chegar aqui
E vejo que há tanto de você nas coisas deste lugar
Esqueço barreiras que saltei, ignoro os perigos que vivi
Só sei que aqui ao seu lado, não há razão para voltar...
Protejo a fagulha que emana do coração
Projeto a agulha nas tramas dessa canção
A vista do alto do morro é uma aquarela sem par
De uma cidade lá embaixo que tenta nos alcançar...
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Pedro miranda e o velho novo samba
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Sorriso seu
Que as crianças inocentes exibem
Me lembram que talvez valha a pena acreditar no paraíso
Já os sorrisos curtos e precisos
Que homens sisudos têm
Me fazem lembrar da falta de graça dum cotidiano maciço
Gosto mesmo do seu alto riso
Que faz da vida coisa simples e urgente
Gargalhada que ressoa suave e revela o siso
Mas me seduz também esse seu sorriso conciso
Quase sem som, que faz apenas vibrar algo no peito
Lá dentro do por do sol de suas sensações vertentes
Esse colar de pérolas que você ostenta quando te faço uma graça casual
Reluz como o luar do interior a fazer sombra no fundo do nosso quintal
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Richard Dawkins, ou a esperança da razão
A FLIP de julho de 2009 trouxe ao Brasil, pela primeira vez, um dos maiores intelectuais vivos, provavelmente o maior. Um assombro que a imprensa nacional tenha dado tão pequena cobertura a esse cientista e escritor reverenciado nos meios acadêmicos e literários ao redor do mundo. Além de cientista respeitado, escritor prolífico, polemista e debatedor Richard Dawkins, o rotweiller de Darwin, é hoje o grande defensor da racionalidade e da ciência contra os ataques da religião e do misticismo. Desde seu primeiro livro, O Gene Egoísta, lançado em 1982, Richard Dawkins, vem se destacando como um cientista consagrado que escreve sobre temas importantes em uma linguagem acessível para o público leigo. Embora tenha vindo para ajudar a lançar seu próximo livro sobre a evolução, o debate se centrou no seu mais polêmico e famoso livro, além do mais brilhante: Deus, Um Delírio. Nesse seminal livro Dawkins ataca com toda sua erudição, verve e racionalidade a idéia de um deus sobrenatural, e todas as imposturas e misticismos que acompanham essa idéia. A idéia central do livro é que a noção de um deus, que além de ter criado o mundo ainda se preocupa com pequenas coisas mundanas, não é apenas ridícula e anti-cientifica, mas é nociva para a vida em sociedade e para o avanço da ciência.
Dawkins se notabilizou não apenas por atacar uma religião específica, mas a própria idéia de religião, ou seja, idéias e pretensas verdades baseadas na tradição, autoridade ou revelação. Para ele devemos refutar e questionar qualquer verdade absoluta da religião através da racionalidade e do questionamento crítico. O verdadeiro conhecimento se adquire através do debate, da razão e das evidências. Racional, materialista e genial faz da defesa da ciência e do debate racional suas armas e seu alvo. Dawkins, por demonstrar as fraquezas e as inconsistências das diversas religiões e o perigo que elas representam, sofre constantemente ataques de fundamentalistas, que querem trazer o debate para o campo da irracionalidade e da obscuridade onde podem gritar mais alto para seus fiéis. Dawkins continua incansável e vence, sempre, os debates, pois tem a seu lado a razão e a ponderação e não verdades reveladas por livros sagrados.
Em um momento em que o culto a “deuses” e a irracionalidade avançam, os atentados suicidas e os conflitos religiosos prosperam, Dawkins além de brilhante é imprescindível. Enquanto isso os maiores polemistas da imprensa tupiniquim (no maior país católico do mundo) são o “filósofo” Olavo de Carvalho e o inquisidor Reinaldo Azevedo, sempre prontos a defender, com fervor religioso, as indefensáveis (im)posturas da igreja católica. Para nos vacinarmos contra esses tipos de misticismos a leitura de Deus, Um Delírio, e seu convite à reflexão, já é um bom antídoto.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Zero Nove e Meio
Outros choram a morte do inventor da guitarra, a musa jamais envelhecida....
No meio de todos, um menino bebe do vinho amanhecido e, tal qual um homicida, dispara sua vanguarda oca no meio da rua.