Mente em alfa
Corpo em off
Pousa na pele
Radioso arrepio
Até que o tempo nos vele
Repousa o espírito
Dentro do peito
Mergulho sem eixo
Busco o cosmos
Atrás destes olhos
Outro mundo visível
Levitando entre o inevitável
E o imprevisível
Mente em alfa
Corpo em off
Pousa na pele
Radioso arrepio
Até que o tempo nos vele
Repousa o espírito
Dentro do peito
Mergulho sem eixo
Busco o cosmos
Atrás destes olhos
Outro mundo visível
Levitando entre o inevitável
E o imprevisível
ESTENDE-SE À SUA SOMBRA
UM MENINO PREGUIÇOSO
QUE VÊ FOLHAS CAÍREM COMO LÁGRIMAS
NO CHÃO
EMPREENDE-SE FORTE À POPA
O VENTO CAPRICHOSO
QUE NORTEIA A COPA
FEITO VELA EM RISTE
A CAMINHO DO VERÃO
DO CORAÇÃO GOTEJA SUA SEIVA
E SUA CÂNDIDA ALMA, NADA EIVA
DELICIANDO-SE COM FRUTAS DE MIL SABORES
ENCOSTA A CABEÇA NO TRAVESSEIRO DE SUAS RAÍZES,
SEM TEMORES
E COM AS LUZES DO CÉU QUE LHE INFILTRA A ÍRIS
VÊ-SE COMO ADÃO, NU DE PUDORES
Poetas ficam a pensar,
lá com seus digitais botões
absurdas divagações...
Tsunamis de paz e harmonia
Superaquecimento de corações em chamas
Inundações de olhares apaixonados
momentos de doce epifania...
Eufemismos tão maduros e pueris
Traçados por mágicas pinceladas
Na tela que retratam dentro de si
Na vida, estamos sempre a driblar poréns
nosso pretérito é presente quase perfeito,
temos no coração algumas boas nuvens
e o azul do céu a vibrar no peito.
Gotas de chuva nos irrigam a face
parte da história, deixamos que o acaso trace,
buscando vida nas terras mais áridas
iluminamos lembranças, imagens tão válidas.
Um alguém sem ninguém
preso a amarras e correntes
respira como claustrofóbico
e enxerga somente o que lhe convém.
Nos milhares de ônibus lotados
Nas filas intermináveis dos bancos
Nos elevadores suspensos nas alturas
Nas pistas de dança, onde sufoca suas agruras,
invade-lhe incontinenti
um silêncio arrasador.
Pela manhã,
move-se como foguete
a amarga ambição é o seu doce ópio
e o medo de errar é sua infértil semente.
Sonha em ter alguém
E dizer a ela belas cafonices:
‘meu mel é também seu
no céu do seu peito estou eu’
porém veda seus sentimentos agudos,
por medo de ofuscar o império da razão.
E de tanto sentir que não sente o mundo
teme que o silêncio que aturde seu coração
anoiteça a graça das coisas num segundo
Um prosaico eclipse de vida.
Logo no início do filme, o bem sucedido policial, que se encontra feliz, junto de sua bela família, composta por avós, tias, sobrinhos, linda mulher e o expressivo filho pequeno. Todos em torno de mesas de frutas, na ampla varanda de uma maravilhosa casa de praia. Algumas crianças brincam candidamente, com os pés descalços na areia alva. Os adultos bebem e conversam amenidades.
Quando menos se espera, homens de preto, carregando metralhadoras, granadas e pistolas de longo alcance, chegam numa caminhonete preta. Descem com a fome ávida e fria dos predadores. Sem anunciar a que vieram, adentram à casa e lançam tiros certeiros em um a um dos mais de trinta presentes, começando por uma distinta senhora septagenária, possivelmente mãe do “mocinho” e terminando, com o mórbido atropelamento da mulher e do filho do protagonista. Este, que resiste até o fim, é pego, espancado, metralhado e incendiado junto a um posto de gasolina, que explode, num show pirotécnico.
Todos mortos e destroçados. Não resta um.
Após assistir a essas cenas de pura carnificina, sangue e extermínio em massa até o mais inerme dos monges tibetanos sentiria, arrisco dizer, considerável revolta e até ódio dos “bandidos”.
Porém, como que feito de aço, o intrépido protagonista a tudo sobrevive e surge sadio e altivo de volta à cidade para vingar-se dos criminosos, ou, segundo ressalva do próprio personagem, para “impor uma punição, pois vingança é coisa contaminada por sentimentalismo...”.
Dito e feito, o protagonista derruba, um a um seus algozes, bem como parentes e filhos destes, com todos os requintes de crueldade que “tem direito”, com o apoio e a torcida de 90% dos telespectadores, que, imbuídos do ódio advindo da desgraça sofrida pelo “mocinho”, legitimam a matança, como se dissessem: “Isso mesmo, mate esses bandidos nojentos, eles merecem tudo de pior. Eu faria o mesmo !!”
Mas adiante, o protagonista, incutindo, ainda, mais a idéia de que pretende fazer justiça e não vingar-se, uma vez que a simples vingança não “apagaria as memórias tristes” que carrega, descobre-se um “Justiceiro”. Torna-se um super-herói obscuro, que por saber-se quase invencível enfrenta a todos, com o intuito de evitar o mal. Mas, como evitar o mal? Socorrendo as vítimas? Perguntariam os mais puritanos. Não, matando os “bandidos”, pois as vítimas já morreram. Ou, enfim, fazendo novas vítimas.
A certa altura, uma das personagens, tenta alertar o protagonista de que, se ele continuar nessa vida de matanças, pode acabar se tornando “um deles”. Mas, evidente, que àquela altura, já não há mais lado do bem ou do mal, ou seja, o “mocinho” já virou “bandido”, viciado ao ciclo de maldades a que adentrou vertiginosamente.
Esse ciclo de mortes e vinganças, que desnecessário lembrar fustiga a guerra no oriente médio a séculos, instiga a rivalidade entre coronéis nordestinos na briga entre famílias pela demarcação de terras, fomenta as cínicas intervenções dos EUA na “guerra contra o terror”, enfim, dita o ritmo dos desastres desde sempre. São atos de violência repetidos à exaustão, até perderem o sentido totalmente, a não ser, o de promover uma matança pior do que a que o inimigo lhe fez meses atrás.
E com esta guerra declarada do “mocinho” contra os bandidos, promovendo mortes das mais horríveis, sem qualquer finalidade a não ser “derrubar” todos que o fizeram sofrer, nosso protagonista do filme pensa estar próximo da Justiça. Habilidoso também com as palavras, nosso tétrico herói sabe que o motivo é o que menos interessa nessa matança, por isso, tenta mascarar sua vingança, como se estivesse a “fazer justiça”. E então muitos outros sofrerão a punição de sua Justiça, todos que o fizeram sofrer.
Talvez imbuído de idéias macabras como esta, um estudante sul-coreano residente em Virgínia, nos EUA, sufocado pelo preconceito dos colegas de faculdade, ofuscado pela beleza dos louros de olhos claros americanos, sentindo-se desprezado pela falta de popularidade, com as mulheres principalmente, percebendo-se excluído daquela sociedade, que ele julgava hipócrita e insensível; decidiu dar a essas pessoas a punição que “mereciam” por fazerem-no sofrer. “Não!”, diria ele, “também não era vingança, pois isso é coisa contaminada de sentimentalismo, mas apenas Justiça !”.