quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Precipitando-se

O verde dos semáforos escorre no pára-brisa

Pelo retrovisor, um pedaço de azul ainda reluz

O toldo das barracas de flores curva-se diante dos trovões

E as pessoas apressam passos, erguendo-se como urubus


As gotas de água que brotam do chão, são óleo na frigideira

Centauros motorizados trocam de pele debaixo do viaduto

O cheiro úmido dos céus inunda as vielas da cidade inteira

Meu corpo arde em febre como lava que enxuga o gelo


As árvores incham-se de gotas gordas e agitam-se, bem nutridas

Rios carregam folhas pelas ladeiras, como lágrimas desmelingüidas

As calçadas da avenida ganham cata-ventos negros, que se acotovelam

em suas idas


E de repente então o céu cessa, em sinal de ternura

Mil cores se fundem entre aquelas nuvens escuras

Debaixo das árvores ainda chove como antes


Os meninos chutam ondas nas poças encharcadas

A noite recebe novamente moças deslumbradas

Pelo frescor que se lançou no verão exultante


Cata-ventos viram bengalas

Centauros tiram suas capas

O cheiro do ar se dissipa no breu


Mas a precipitação prossegue ainda em mim.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Quase-monólogo de botequim

A - Tenho 53 anos de vida. Já presenciei muita coisa neste país. Mas continua sempre tudo muito igual, a estrutura não muda. A mentalidade é sempre tacanha. Mudamos de presidente, mas a balela é sempre a mesma.

B – É verdade. A começar pelas conversas de boteco e de elevador.... (fala meio de lado)

A - Em 68, quando você nem era nascido, eu era adolescente e minha irmã era do movimento estudantil, esquerdista mesmo. Você acredita que, uma vez, quando ela estava grávida de 8 meses, participou de uma passeata na praça da República e me levou junto!

B – Que loucura!

A -Na verdade, foi o louco do namorado dela, hoje marido, que nos arrastou pra lá. Ele levou bolinhas de gude, para jogar no chão e derrubar os cavalos da polícia que vinham atrás de nós. Joguei várias bolinhas naquele dia..... Foi naquele dia que aprendi a odiar a polícia!

B - São mesmo uns animais esse policiais.... Abusam dos inocentes!! (esbraveja)

A – Pois é. E o mais irônico é que hoje eu sou polícia!

B – (silêncio constrangedor)

A - Mas eu sou escrivão, nunca fiz diligência na rua, não! Quer dizer, FUI escrivão, porque hoje em dia estou parado. Fui o melhor escrivão do Guarujá, meu amigo, datilografava 65 Cartas Precatórias por semana, tu tem idéia de quanto é isso? (Faz com a mão, para dar idéia de uma pilha do chão até sua cabeça) Pauleira mesmo, brother!

B – Então, quer dizer que você foi um funcionário exemplar na polícia ?

A - Eu era tão pauleira, que até contraí L.E.R. (lesão por esforço repetitivo) nas duas mãos. (diz com olhar grave, mostrando os dedos tortos das mãos). Depois disso, parei total.....

B - E por isso o senhor se afastou. E agora o que senhor pensa em fazer?

A – Em primeiro lugar, não me chame de senhor. Senhor pressupõe, por outro lado, vassalo, escravidão. Me trate por você!

B – Você é quem sabe....

A- Então. Hoje em dia faço porra nenhuma, irmão. Passeio só. E gastando o seu dinheiro de contribuinte otário (grita com o dedo em riste, apontando para o outro). E o seu também, (aponta para o garçom que ria debochadamente). E o de todo mundo aqui!!! (urra para o vazio, com olhar nervoso e sarcástico).

B – Quer dizer você se aposentou ganhando bem? Mamando nas tetas do Estado.....

A- Não, não.... Não me aposentei ainda. O pior é que os caras disseram que eu era imprescindível e me deram uma outra função, como auxiliar do assistente do aspone.... Sabe o que é Aspone? As iniciais de Assessor de Porra Nenhuma! Mas, que no fim das contas, era a função do office-boy: tirar xerox e buscar documentos. Fiquei puto, né? O quê que tu acha? Aí, não fui mais trabalhar e os caras continuam me pagando como se eu trabalhasse. Sou funcionário fantasma agora. (fala com ar blasé)

B - E você não tem vontade de fazer mais nada da vida? De voltar a produzir?

A - No começo, até tinha, meu. Vontade de conversar.

B – Sei...... É importante mesmo.

A - Como você pode perceber, meu rapaz, sou bom de papo, dou boa tarde à minhoca e boa noite ao criado mudo e por assim vai. Falo pelos cotovelos e com todo mundo. Quer dizer, falava, né? Depois do que me aconteceu mês passado, quase virei um sociopata maluco.

B - Com você? Não é possível ... O que te aconteceu?

A- Outro dia, peguei o ônibus para ir até a praia do Tombo. Tava descendo do busão, quando vi uma moça extremamente grávida, grávida para caramba, você não imagina o quanto. Parecia que ia explodir, sabe? Devia estar com uns 8 ou 9 meses. Aquela melancia na barriga.... Igual minha irmã, no dia dos policiais, sabe?

B – Claro, imagino...

A - Então, olhei para ela e com toda a cordialidade do mundo, falei “Bom parto, senhora!”. Sabe o que ela fez? Me olhou atravessado, com cara de ofendida e ainda disse “Senhora é a mãe!” Vê se pode rapá, que estupidez...

B - Acho que ela quis dizer que só vai virar senhora depois que for mãe.... Ou sei lá. Talvez não seja casada. Coisa de mulher... Idade incomoda, sabe?

A- Será que foi isso? Não, não é possível... Deve ter sido a palavra “parto”. Que lembra despedida, morte... Talvez ela tenha ficado constrangida.

B – Ainda acho que ela não tenha gostado da palavra “Senhora”.

A – Quer saber? Deve ser o medo de se relacionar, medo de interagir, cara. As pessoas, hoje em dia não querem trocar idéias, só querem impor as suas. Ou não querem desenvolver opiniões, só querem comprá-las prontas nos jornais e na TV. E existem aqueles que parecem querer convencer aos outros o tempo todo, falam demais, como políticos, sabe? Isso também me incomoda. Você não imagina o quanto.

B – Posso calcular....

A - É por isso que estou vendendo tudo e vou me mudar para o meio-do-mato. Vou virar eremita. Não preciso conversar com mais ninguém, nem pagar IPTU, nem conta de gás, nem assistir TV, nem esperar abrir o semáforo, nem nada!! Só vou falar com os bichos, só vou escutar o que eles me dizem. Vou me entender tanto com ele, que vou virar bicho também.

B - Bicho somos nós que vivemos em São Paulo, bicho..... Quer dizer, amigo. Naquela cidade que é uma terra de ninguém. Um arcabouço de loucos, como diz um amigo meu, poeta.

A - O homem é um bicho, por natureza! (diz já com certa frouxeza na língua) - E se torna mais irracional por acreditar que não o é. Que é superior! Por ter a razão e o livre arbítrio.... Grandes merda.... Eu vou-me embora pro meio do mato! (Anuncia, com ar definitivo) - Quanto eu te devo? (pergunta ao garçom).

B- Não, não, não! Essa é por minha conta! Eu faço questão, pois foi um grande prazer te ouvir, ou melhor, te conhecer! (Joga umas moedas no balcão em pagamento pela bebida do outro)

A – Muita gentileza. Mas não vou aceitar. Odeio me sentir devedor. (joga outras moedas no balcão e se levanta). Vai saber? Hoje em dia, é todo mundo louco, é capaz de você querer me cobrar depois, me protestar, me executar, sei lá eu. Vejam esses caras brigando por um bilhete de loteria premiado ! Tudo começa com gentileza e termina com litígio, tô fora. A gente se vê! Se você for para o meio do mato também, é claro. (vai andando, num passo torto)

B – Boa sorte! (observa a saída do homem e diz, como que pensando alto) - Espero que nesse meio do mato, ele não arrume encrenca com nenhum bicho. Afinal, lá impera aquela tal seleção natural.....

sábado, 6 de outubro de 2007

Remoendo o lixo

Examinando nossas excrescências, nossos dejetos, revelam-se nossas pequenas essências, nossos imensos projetos. Muitos comem esses restos. Alguns buscam neles matéria-prima para fazer coisas novas. O lixo são os restos do que não queremos mais. Isso é lixo e lugar disso é no lixo. Quando morremos, nossos restos também são inutilizados no fundo da terra, mas há quem não desperdice todas as partes e as recicle, dando esperança de vida a outras vidas. Para onde vai todo o lixo do mundo? Lixo tóxico, lixo industrial, lixo hospitalar, lixo de escritório, lixo de restaurante que vira prato principal dos que moram no lixo. Continua no mundo ou há um válvula de escape? A boca do lixo. O lixão, aliás, é o lixo dos lixos. Muita gente ganha a vida recolhendo o lixo. Um dia sem ser recolhido e o lixo engole as ruas e os bueiros. Engole seus donos. Gatos têm fetiches com lixos suculentos. Cachorros também gostam de virar latas, como que por esporte. Há rios que, de tanto esgoto, tornam-se grotescas geléias de lixo. Lixo no mar é como fumaça no céu. O mundo de alguns insetos é o nosso lixo. E vice-versa. O lixo orgânico aduba e fertiliza o mundo, mas antes disso acontecer, os urubus vigiam avidamente nossa putrefação.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Tudo começa em 1916. Donga lança "Pelo telefone"("Pelo telefone o chefe da polícia manda me avisar..."). A partir de então "Quem não gosta de samba bom sujeito não é ou é ruim da cabeça ou doente do pé". Circunscrito ao Rio de Janeiro até os anos 1930, começa a se espalhar pelo Brasil aquele que seria o ritmo que mais representa a brasilianidade. Uma mistura entre os tambores africanos e melodias bem trabalhadas é logo adotado pelos boêmios e malandros do Rio. Nomes como Noel Rosa, Wilson Batista, Geraldo Pereira, Donga, Cyro Monteiro, Ismael Silva, Heitor dos Prazeres e tantos outros valorizavam a malandragem e cantavam a vida noturna do Rio. Noel Rosa gostava de dizer que sambista não era malandro e sim "Rapaz folgado" em suas disputas musicais com Wilson Batista. O sambista mais talentoso dos primórdios do samba deixou mais de 200 músicas compostas. Ao morrer de tuberculose com apenas 27 anos, Noel tinha deixado clássicos da música brasileira como Feitiço da Vila, Com que Roupa, Feitio de Oração e tantas outras. Ao cantar "que quem nasce lá na Vila nem sequer vacila ao abraçar o samba" Noel exaltava as belezas de sua Vila Isabel, alvo de disputas com seu eterno rival Wilson Batista. Outro nome que se destaca nessa época é o talentoso Geraldo Pereeira, que entre outra pérolas nos brindou com o clássico "Falsa Baiana" que nos informava "que a falasa baiana quando entra no samba ninguém se incomoda , ninguém abre a roda ninguém grita oba salva a Bahia senhor". Nesse momento a Bahia começa a pertencer ao imaginário do samba. Um nome que será de fudamental importância para isso será o do genial Dorival Caymmi. Criador dos clássicos "Samba da minha terra", "Marina","Dora" e "Saudades da bahia" veio viver no Rio e se tornou um dos ícones do samba com seu jeito simples e sua voz potente. A popularização do samba como ritmo "nacional" não se deu por acaso. Getúlio com a instituição do Estado Novo queria criar uma identidade nacional e o samba fez o papel de música nacional. Além disso os sambistas que antes cantavam a malandragem e a vadiagem passaram a ser "compelidos a cantar o trabalho. Wilson Batista, notório malandro passou a cantar "Isaura hj eu não posso ficar se eu cair nos seus braços não há despertador que me faça acordar.. o trabalho é um dever todos devem respeitar...). Que mudança. O sambas que exaltavam as belezas do país também começaram a se tornar mais importantes e foram colocados na condição de hinos. O genial Ary Barroso é campeão desse estilo de samba. "Brasil, meu Brasil brasileiro meu mulato inzoneiro vou cantarte nos meus versos...". O samba, porém nunca foi purista. Flertava com diferentes ritmos. Como dizer que o magistral Pixinguinha, o mestre do choro, também não é um sambista. E Garoto o genial violonista? Com a popularização do samba grande parte dos músicos brasileiros passou a ter no samba algum tipo de inspiração ou influência. Em fins de 1950 surge a bossa-nova- que embora alguns puristas achem que não - é uma samba com harmonias mais elaboradas que flerta com o jazz. João Gilberto dizia que não tocava bossa-nova e sim samba. Tom Jobim criou os sambas mais bonitos da história da música brasileira. Carlos lyra outra lenda da Bossa Nova e parceiro em clássicos como "Coisa mais Linda","Você e eu","Minha Namorada", também era um exímio sambista. Após a bossa nova surgiram diversios artistas que influenciados por ela iriam fazer um samba mais melodioso. Dentre eles o mais conhecido cancioneiro brasileiro contempôraneo. Não podemos citar clássicos de Chico Buarque. Quase todas suas músicas são clássicos . Só como exemplo o que dizer de uma música sobre separação como "Trocando em miúdos"? Além de Chico outros nomes contemporâneos se mostraram clássicos. João Bosco (que alguns dizem fazer MPB), um excepcional instrumentista e compositos que junto com Aldir Blanc crious diversos clássicos do samba. O que falar de Cartola e Nelson Cavaquinho dois gigantes do samba. Eles não foram influencidos pela bossa-nova, mas foram resgatados por aqueles que a seguiram. Hoje podemos dividir o samba em duas vertentes principais. (Axé, pagode e outros tantos mais serão ignorados). Uma vertente mais melódica que segue essa linha de Cartola , Chico, Ary barroso. E outra linha mais percurssiva como Candeia, João Nogueira, Beth Carvalho. Ninguém passeia tão bem pelas duas como o príncipe do samba: Paulinho da Viola. Capaz de compor um partdio alto alto como "Pagode do Vavá" um samba exaltação como "Foi um Rio que passou na minha vida" faz uma samba choro como "Mente ao meu coração" que faz até os mais duros lembrarem de suas desilusões. Esperamos que surjam outros compositores dessa estirpe. Mantendo a tradição misturem ritmo e melodia de maneira tão singular. Só ão deixe de sambar dauela maneira. "tá legal, tá legal eu aceito o argumento, mas não altere o samba tanto assim, olha que a rapaziada tá sentindo a falta de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim."

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Alfa

Mente em alfa

Corpo em off

Pousa na pele

Radioso arrepio

Até que o tempo nos vele

Repousa o espírito

Dentro do peito

Mergulho sem eixo

Busco o cosmos

Atrás destes olhos

Outro mundo visível

Levitando entre o inevitável

E o imprevisível

quinta-feira, 12 de julho de 2007

SEIVA BRUTA

ESTENDE-SE À SUA SOMBRA

UM MENINO PREGUIÇOSO

QUE VÊ FOLHAS CAÍREM COMO LÁGRIMAS

NO CHÃO

EMPREENDE-SE FORTE À POPA

O VENTO CAPRICHOSO

QUE NORTEIA A COPA

FEITO VELA EM RISTE

A CAMINHO DO VERÃO

DO CORAÇÃO GOTEJA SUA SEIVA

E SUA CÂNDIDA ALMA, NADA EIVA

DELICIANDO-SE COM FRUTAS DE MIL SABORES

ENCOSTA A CABEÇA NO TRAVESSEIRO DE SUAS RAÍZES,

SEM TEMORES

E COM AS LUZES DO CÉU QUE LHE INFILTRA A ÍRIS

VÊ-SE COMO ADÃO, NU DE PUDORES

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Pincéis mágicos

Poetas ficam a pensar,

lá com seus digitais botões

absurdas divagações...

Tsunamis de paz e harmonia

Superaquecimento de corações em chamas

Inundações de olhares apaixonados

momentos de doce epifania...

Eufemismos tão maduros e pueris

Traçados por mágicas pinceladas

Na tela que retratam dentro de si