quinta-feira, 20 de maio de 2010

èramuS .vA / Av. Sumaré


Sob o sol ardente que racha
raízes explodem o asfalto
Mas só João percebe perplexo
que escorre sangue de borracha
dos braços que flutuam lá no alto...
laivos de seiva sobre os automóveis convexos*

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Pedaço de Lua

Primeiro, a lua fina me olha
Assim de soslaio
Agora, a senhora suprema me sorri
Como a um lacaio
Sei que a tênue película de prata
em breve, me trará o frio de maio
e me sentirei em úmida mata

Mas se ela não tem crateras,
Nem dragão ou São Jorge
Será um pedaço que se desprendeu daquela?
Parece tão tímida, minguante...
Como se não soubesse as paixões que forje
Com sua luz azul apaziguante

sexta-feira, 19 de março de 2010

Arrebentação

Nadando entre ondas fortes
desvencilhando-se de enevoadas águas
respira rápidos e sufocados sopros
quando apóia-se a uma pedra, por sorte
só consegue fazer relaxar os pesados ombros
sem querer pensar em quase nada
tenta a qualquer custo recuperar o fôlego

a linha do horizonte estende-se na superfície rasa
o sol repousa como diamante sobre a espuma
as gaivotas esbanjam volúpia, batendo asas
e enquanto luta para deixar a densa bruma
o homem fatigado crê que nada mais o arrasa

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O anoitecer dos tamborins

Em tempos vazios
sombras caminham pela cidade torta
luzes, só de alguns isqueiros frenéticos
em janelas altas e mornas
mergulhamos em sonos herméticos
embalados pela avenida-aorta

os semáforos insistem num verde sem fim
nos céus, surge um trôpego Zeppelin

as garrafas brindam involuntárias,
nas mãos da garçonete solitária

enquanto cães latem, num debate cego
a cidade, ao longe, se desmonta
como um castelo de lego.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fagulhas

Protejo a fagulha que emana do coração

Entrelaço a agulha nas tramas dessa canção...

Penso ter visto o seu rosto perdido na multidão

É a cidade-deserto que me exibe outra ilusão


Vou andando pra cima e pra baixo, sempre a buscar

Aprendi, sonhos são mais reais quanto mais se sonhar


Mas não sei onde pus a cabeça quando procurei chegar aqui

E vejo que há tanto de você nas coisas deste lugar

Esqueço barreiras que saltei, ignoro os perigos que vivi

Só sei que aqui ao seu lado, não há razão para voltar...


Protejo a fagulha que emana do coração

Projeto a agulha nas tramas dessa canção

A vista do alto do morro é uma aquarela sem par

De uma cidade lá embaixo que tenta nos alcançar...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Pedro miranda e o velho novo samba

Um dos artistas mais talentosos e criativos da safra de músicos brasileiros, o pandeirista e cantor Pedro Miranda lançou mais um excelente álbum: Pimenteira. Após um excelente álbum de estréia, Coisa com Coisa, o músico carioca lança um álbum que além de tradicionais raridades do samba, também traz composições de novos autores. Destaque para a bem-humorada Hello, my girl e para a música Meio-tom, que lembra, na temática, Desafinado. Pedro Miranda é pandeirista e vocalista da banda Semente que acompanha a também excelente Teresa Cristina. O grupo foi um dos principais responsáveis para a revitalização cultural e musical da Lapa, na década passada. Pedro Miranda, embora jovem, já é um veterano no cenário musical carioca. Sua voz rouca e sua maneira original de cantar traz uma mistura da malemolência dos velhos sambistas com uma sonoridade que embora nova, presta tributo ao velho samba. Pedro Miranda é samba novo, velho e bom. Bom não, ótimo. Algumas músicas do novo álbum podem ser ouvidas em http://www.myspace.com/pedrinhomiranda.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sorriso seu

Gosto dos sorrisos largos e lisos
Que as crianças inocentes exibem
Me lembram que talvez valha a pena acreditar no paraíso
Já os sorrisos curtos e precisos
Que homens sisudos têm
Me fazem lembrar da falta de graça dum cotidiano maciço

Gosto mesmo do seu alto riso
Que faz da vida coisa simples e urgente
Gargalhada que ressoa suave e revela o siso
Mas me seduz também esse seu sorriso conciso
Quase sem som, que faz apenas vibrar algo no peito
Lá dentro do por do sol de suas sensações vertentes

Esse colar de pérolas que você ostenta quando te faço uma graça casual
Reluz como o luar do interior a fazer sombra no fundo do nosso quintal