segunda-feira, 28 de maio de 2007
Datas especiais, Ritos e Celebrações
terça-feira, 8 de maio de 2007
Poréns
Na vida, estamos sempre a driblar poréns
nosso pretérito é presente quase perfeito,
temos no coração algumas boas nuvens
e o azul do céu a vibrar no peito.
Gotas de chuva nos irrigam a face
parte da história, deixamos que o acaso trace,
buscando vida nas terras mais áridas
iluminamos lembranças, imagens tão válidas.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
Eclipse
Um alguém sem ninguém
preso a amarras e correntes
respira como claustrofóbico
e enxerga somente o que lhe convém.
Nos milhares de ônibus lotados
Nas filas intermináveis dos bancos
Nos elevadores suspensos nas alturas
Nas pistas de dança, onde sufoca suas agruras,
invade-lhe incontinenti
um silêncio arrasador.
Pela manhã,
move-se como foguete
a amarga ambição é o seu doce ópio
e o medo de errar é sua infértil semente.
Sonha em ter alguém
E dizer a ela belas cafonices:
‘meu mel é também seu
no céu do seu peito estou eu’
porém veda seus sentimentos agudos,
por medo de ofuscar o império da razão.
E de tanto sentir que não sente o mundo
teme que o silêncio que aturde seu coração
anoiteça a graça das coisas num segundo
Um prosaico eclipse de vida.
terça-feira, 24 de abril de 2007
Os Justiceiros de Hollywood
Logo no início do filme, o bem sucedido policial, que se encontra feliz, junto de sua bela família, composta por avós, tias, sobrinhos, linda mulher e o expressivo filho pequeno. Todos em torno de mesas de frutas, na ampla varanda de uma maravilhosa casa de praia. Algumas crianças brincam candidamente, com os pés descalços na areia alva. Os adultos bebem e conversam amenidades.
Quando menos se espera, homens de preto, carregando metralhadoras, granadas e pistolas de longo alcance, chegam numa caminhonete preta. Descem com a fome ávida e fria dos predadores. Sem anunciar a que vieram, adentram à casa e lançam tiros certeiros em um a um dos mais de trinta presentes, começando por uma distinta senhora septagenária, possivelmente mãe do “mocinho” e terminando, com o mórbido atropelamento da mulher e do filho do protagonista. Este, que resiste até o fim, é pego, espancado, metralhado e incendiado junto a um posto de gasolina, que explode, num show pirotécnico.
Todos mortos e destroçados. Não resta um.
Após assistir a essas cenas de pura carnificina, sangue e extermínio em massa até o mais inerme dos monges tibetanos sentiria, arrisco dizer, considerável revolta e até ódio dos “bandidos”.
Porém, como que feito de aço, o intrépido protagonista a tudo sobrevive e surge sadio e altivo de volta à cidade para vingar-se dos criminosos, ou, segundo ressalva do próprio personagem, para “impor uma punição, pois vingança é coisa contaminada por sentimentalismo...”.
Dito e feito, o protagonista derruba, um a um seus algozes, bem como parentes e filhos destes, com todos os requintes de crueldade que “tem direito”, com o apoio e a torcida de 90% dos telespectadores, que, imbuídos do ódio advindo da desgraça sofrida pelo “mocinho”, legitimam a matança, como se dissessem: “Isso mesmo, mate esses bandidos nojentos, eles merecem tudo de pior. Eu faria o mesmo !!”
Mas adiante, o protagonista, incutindo, ainda, mais a idéia de que pretende fazer justiça e não vingar-se, uma vez que a simples vingança não “apagaria as memórias tristes” que carrega, descobre-se um “Justiceiro”. Torna-se um super-herói obscuro, que por saber-se quase invencível enfrenta a todos, com o intuito de evitar o mal. Mas, como evitar o mal? Socorrendo as vítimas? Perguntariam os mais puritanos. Não, matando os “bandidos”, pois as vítimas já morreram. Ou, enfim, fazendo novas vítimas.
A certa altura, uma das personagens, tenta alertar o protagonista de que, se ele continuar nessa vida de matanças, pode acabar se tornando “um deles”. Mas, evidente, que àquela altura, já não há mais lado do bem ou do mal, ou seja, o “mocinho” já virou “bandido”, viciado ao ciclo de maldades a que adentrou vertiginosamente.
Esse ciclo de mortes e vinganças, que desnecessário lembrar fustiga a guerra no oriente médio a séculos, instiga a rivalidade entre coronéis nordestinos na briga entre famílias pela demarcação de terras, fomenta as cínicas intervenções dos EUA na “guerra contra o terror”, enfim, dita o ritmo dos desastres desde sempre. São atos de violência repetidos à exaustão, até perderem o sentido totalmente, a não ser, o de promover uma matança pior do que a que o inimigo lhe fez meses atrás.
E com esta guerra declarada do “mocinho” contra os bandidos, promovendo mortes das mais horríveis, sem qualquer finalidade a não ser “derrubar” todos que o fizeram sofrer, nosso protagonista do filme pensa estar próximo da Justiça. Habilidoso também com as palavras, nosso tétrico herói sabe que o motivo é o que menos interessa nessa matança, por isso, tenta mascarar sua vingança, como se estivesse a “fazer justiça”. E então muitos outros sofrerão a punição de sua Justiça, todos que o fizeram sofrer.
Talvez imbuído de idéias macabras como esta, um estudante sul-coreano residente em Virgínia, nos EUA, sufocado pelo preconceito dos colegas de faculdade, ofuscado pela beleza dos louros de olhos claros americanos, sentindo-se desprezado pela falta de popularidade, com as mulheres principalmente, percebendo-se excluído daquela sociedade, que ele julgava hipócrita e insensível; decidiu dar a essas pessoas a punição que “mereciam” por fazerem-no sofrer. “Não!”, diria ele, “também não era vingança, pois isso é coisa contaminada de sentimentalismo, mas apenas Justiça !”.
terça-feira, 17 de abril de 2007
O Cheiro do ralo
Doze Deuses
Nem o desígnio de doze deuses desastrados
terá o poder de desarmar
o desejo do nosso desnudo amar
Nem o desastre mais desordenado
Terá sucesso em nos desarticular
Ou, do nosso devaneio, nos desembriagar
Ninguém, nem o mais desumano dos diabos...
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Vis-a-vis
desnuda as mentes e após
anuvia os pensamentos
lhes sufoca a voz
É assim.
Vis
a vis
com você
é uma vista linda
que permeia seu umbigo.
Desse jeito, só você, aqui comigo
não nos atinge maldade...
Me mostre toda essa incontida verdade,
Deixe
entoar aberta
a palavra inserta
nessas nossas vozes caladas.
Basta ouvir a entonação certa
e nossas orlas repousam alinhavadas,
Depois,
como uma turista
perde-se e me inunda a vista
pena que seja menos vinda do que ida
em seus olhos, que são úmidas iscas
deixo-me ir e a vida nos lida.