sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Razão, fé e ciência
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Redemoinho
Inútil relutar
contra a maré atrativa
sugada em retrospectiva
viva de si
Sem compromisso
deixou-se levar
abraçar e embarcar
Circundando em órbita
ao redor do leito
observava lívida
com enorme respeito
seu próprio corpo em pleno eixo...
Nada restava de sua esperança ressequida
sem as rédeas da razão
agora em águas distantes e tépidas
sem fazer muita questão
de ir ou vir
Nadava contra a corrente de si...
Buscando simplesmente
nem passado, nem futuro,
mas um outro hoje
um pouco menos escuro.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Despertar
Promessas com ares urgentes
Hábitos travestidos de derradeiros
A palavra entra em choque certeiro
Com o gesto que ainda paira sobre a gente
- Não se pode começar hoje, em plena festa
A renúncia à alegria, que nos propõe tal promessa!
Amanhã quem sabe, quando o ano nascer de fato
Hoje tudo ainda é só gestação...
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Lua cheia
Vem, meu amor,
Sente aqui nessa cratera
E vem ver a Terra se pôr
aqui da Lua, onde tudo te espera
o tempo flutua e a vida tem cor...
Aqui ainda é dia,
todo mundo nos vê
Quando esta lua brilha
eu me vejo em você
Sobrevoe as estrelas
Esse deserto é um cais
Você pode tê-las
Só não olhe para trás
Vem, meu amor,
Vem ver a Terra nos transpor...
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Dívida
Pecados a serem expurgados
São tão pesados...
Como os débitos a serem purgados
Por valores amortizados...
Juros de mora nos comem
Juras de amor nos nutrem
São as penas que vêm de outrora
Uma promessa que nos devora
Devemos ter mais medo de dever...
Ou de morrer?
As labaredas da cobrança perseguem o homem
E matam-no, se não estiver tudo bem quitado.
Coisa de católico.
Ou de coitado?
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
Precipitando-se
O verde dos semáforos escorre no pára-brisa
Pelo retrovisor, um pedaço de azul ainda reluz
O toldo das barracas de flores curva-se diante dos trovões
E as pessoas apressam passos, erguendo-se como urubus
As gotas de água que brotam do chão, são óleo na frigideira
Centauros motorizados trocam de pele debaixo do viaduto
O cheiro úmido dos céus inunda as vielas da cidade inteira
Meu corpo arde em febre como lava que enxuga o gelo
As árvores incham-se de gotas gordas e agitam-se, bem nutridas
Rios carregam folhas pelas ladeiras, como lágrimas desmelingüidas
As calçadas da avenida ganham cata-ventos negros, que se acotovelam
em suas idas
E de repente então o céu cessa, em sinal de ternura
Mil cores se fundem entre aquelas nuvens escuras
Debaixo das árvores ainda chove como antes
Os meninos chutam ondas nas poças encharcadas
A noite recebe novamente moças deslumbradas
Pelo frescor que se lançou no verão exultante
Cata-ventos viram bengalas
Centauros tiram suas capas
O cheiro do ar se dissipa no breu
Mas a precipitação prossegue ainda em mim.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Quase-monólogo de botequim
B – É verdade. A começar pelas conversas de boteco e de elevador.... (fala meio de lado)
A - Em 68, quando você nem era nascido, eu era adolescente e minha irmã era do movimento estudantil, esquerdista mesmo. Você acredita que, uma vez, quando ela estava grávida de 8 meses, participou de uma passeata na praça da República e me levou junto!
B – Que loucura!
A -Na verdade, foi o louco do namorado dela, hoje marido, que nos arrastou pra lá. Ele levou bolinhas de gude, para jogar no chão e derrubar os cavalos da polícia que vinham atrás de nós. Joguei várias bolinhas naquele dia..... Foi naquele dia que aprendi a odiar a polícia!
B - São mesmo uns animais esse policiais.... Abusam dos inocentes!! (esbraveja)
A – Pois é. E o mais irônico é que hoje eu sou polícia!
B – (silêncio constrangedor)
A - Mas eu sou escrivão, nunca fiz diligência na rua, não! Quer dizer, FUI escrivão, porque hoje em dia estou parado. Fui o melhor escrivão do Guarujá, meu amigo, datilografava 65 Cartas Precatórias por semana, tu tem idéia de quanto é isso? (Faz com a mão, para dar idéia de uma pilha do chão até sua cabeça) Pauleira mesmo, brother!
B – Então, quer dizer que você foi um funcionário exemplar na polícia ?
A - Eu era tão pauleira, que até contraí L.E.R. (lesão por esforço repetitivo) nas duas mãos. (diz com olhar grave, mostrando os dedos tortos das mãos). Depois disso, parei total.....
B - E por isso o senhor se afastou. E agora o que senhor pensa em fazer?
A – Em primeiro lugar, não me chame de senhor. Senhor pressupõe, por outro lado, vassalo, escravidão. Me trate por você!
B – Você é quem sabe....
A- Então. Hoje em dia faço porra nenhuma, irmão. Passeio só. E gastando o seu dinheiro de contribuinte otário (grita com o dedo em riste, apontando para o outro). E o seu também, (aponta para o garçom que ria debochadamente). E o de todo mundo aqui!!! (urra para o vazio, com olhar nervoso e sarcástico).
B – Quer dizer você se aposentou ganhando bem? Mamando nas tetas do Estado.....
A- Não, não.... Não me aposentei ainda. O pior é que os caras disseram que eu era imprescindível e me deram uma outra função, como auxiliar do assistente do aspone.... Sabe o que é Aspone? As iniciais de Assessor de Porra Nenhuma! Mas, que no fim das contas, era a função do office-boy: tirar xerox e buscar documentos. Fiquei puto, né? O quê que tu acha? Aí, não fui mais trabalhar e os caras continuam me pagando como se eu trabalhasse. Sou funcionário fantasma agora. (fala com ar blasé)
B - E você não tem vontade de fazer mais nada da vida? De voltar a produzir?
A - No começo, até tinha, meu. Vontade de conversar.
B – Sei...... É importante mesmo.
A - Como você pode perceber, meu rapaz, sou bom de papo, dou boa tarde à minhoca e boa noite ao criado mudo e por assim vai. Falo pelos cotovelos e com todo mundo. Quer dizer, falava, né? Depois do que me aconteceu mês passado, quase virei um sociopata maluco.
B - Com você? Não é possível ... O que te aconteceu?
A- Outro dia, peguei o ônibus para ir até a praia do Tombo. Tava descendo do busão, quando vi uma moça extremamente grávida, grávida para caramba, você não imagina o quanto. Parecia que ia explodir, sabe? Devia estar com uns 8 ou 9 meses. Aquela melancia na barriga.... Igual minha irmã, no dia dos policiais, sabe?
B – Claro, imagino...
A - Então, olhei para ela e com toda a cordialidade do mundo, falei “Bom parto, senhora!”. Sabe o que ela fez? Me olhou atravessado, com cara de ofendida e ainda disse “Senhora é a mãe!” Vê se pode rapá, que estupidez...
B - Acho que ela quis dizer que só vai virar senhora depois que for mãe.... Ou sei lá. Talvez não seja casada. Coisa de mulher... Idade incomoda, sabe?
A- Será que foi isso? Não, não é possível... Deve ter sido a palavra “parto”. Que lembra despedida, morte... Talvez ela tenha ficado constrangida.
B – Ainda acho que ela não tenha gostado da palavra “Senhora”.
A – Quer saber? Deve ser o medo de se relacionar, medo de interagir, cara. As pessoas, hoje em dia não querem trocar idéias, só querem impor as suas. Ou não querem desenvolver opiniões, só querem comprá-las prontas nos jornais e na TV. E existem aqueles que parecem querer convencer aos outros o tempo todo, falam demais, como políticos, sabe? Isso também me incomoda. Você não imagina o quanto.
B – Posso calcular....
A - É por isso que estou vendendo tudo e vou me mudar para o meio-do-mato. Vou virar eremita. Não preciso conversar com mais ninguém, nem pagar IPTU, nem conta de gás, nem assistir TV, nem esperar abrir o semáforo, nem nada!! Só vou falar com os bichos, só vou escutar o que eles me dizem. Vou me entender tanto com ele, que vou virar bicho também.
B - Bicho somos nós que vivemos
A - O homem é um bicho, por natureza! (diz já com certa frouxeza na língua) - E se torna mais irracional por acreditar que não o é. Que é superior! Por ter a razão e o livre arbítrio.... Grandes merda.... Eu vou-me embora pro meio do mato! (Anuncia, com ar definitivo) - Quanto eu te devo? (pergunta ao garçom).
B- Não, não, não! Essa é por minha conta! Eu faço questão, pois foi um grande prazer te ouvir, ou melhor, te conhecer! (Joga umas moedas no balcão em pagamento pela bebida do outro)
A – Muita gentileza. Mas não vou aceitar. Odeio me sentir devedor. (joga outras moedas no balcão e se levanta). Vai saber? Hoje em dia, é todo mundo louco, é capaz de você querer me cobrar depois, me protestar, me executar, sei lá eu. Vejam esses caras brigando por um bilhete de loteria premiado ! Tudo começa com gentileza e termina com litígio, tô fora. A gente se vê! Se você for para o meio do mato também, é claro. (vai andando, num passo torto)
B – Boa sorte! (observa a saída do homem e diz, como que pensando alto) - Espero que nesse meio do mato, ele não arrume encrenca com nenhum bicho. Afinal, lá impera aquela tal seleção natural.....